Editora Sulina
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O Poeta vai ao campo

01/11/2003

Em seu novo livro, Canto de Sesmaria, que terá sessão de autógrafos na próxima quinta-feira, às 18h, no Pavilhão Central da Praça da Alfândega, Luiz de Miranda procura se identificar à figura do gaúcho independente e justiceiro
REGINA ZILBERMAN/ Doutora em Letras, professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, co-autora de O Preço




A Luiz de Miranda podem-se aplicar os versos de Mario Quintana, enunciados em Esconderijos do Tempo: "O poeta canta a si mesmo / porque de si mesmo é diverso". Com efeito, predomina, nos poemas de Miranda, o uso da primeira pessoa, porém, o sujeito lírico não se fecha sobre si mesmo, como se autocontemplasse. Movendo-se na direção oposta ao intimismo e ao centramento na própria identidade, o eu se multiplica em diferentes seres, para dar conta da variedade das questões que aborda. Seu livro mais recente, Cantos de Sesmaria (Sulina, 278 páginas, R$ 25), é prova cabal das virtudes do escritor, que investe e desdobra a subjetividade, para revelar sua preocupação com o mundo e a sociedade.

O título do livro sugere, desde logo, a alteração conferida pelo autor aos rumos de sua poética. Entre 2000 e 2002, as obras de Luiz de Miranda traziam o substantivo "trilogia" no título, a do Azul, do Mar, da Madrugada e da Ventania (Sulina, 2000) e a da Casa de Deus (Sulina, 2002), seqüência ambas do Quarteto dos Mistérios, Amor e Agonias (Sulina, 1999), nomes, todos, que aludem à repartição e à segmentação, sem que, todavia, a homogeneidade seja deixada de lado. Cantos de Sesmaria é, desde o começo, uno, dividido tão-somente nos poemas que o compõem, partes formadoras de um todo que se quer inteiriço. O compromisso com o lirismo aparece igualmente na indicação do gênero a que se filia, o "canto", berço da melodia e da sonoridade que está nos princípios da poesia.

A menção à "sesmaria", no mesmo título, é, por sua vez, sinal da adesão do poeta à temática rural ou, nos termos da literatura do Rio Grande do Sul, à gauchesca, cuja tradição remonta ao século 19. O vínculo se faz desde os primeiros poemas, quando o poeta declara: "nas patas do meu cavalo / canto mais e não calo", depoimento que estabelece o paradigma que organiza as estrofes componentes do livro. Identificado ao gaúcho cavaleiro, o eu lírico dá vazão à sua voz e à sua expressão particular, expondo não apenas o sentimento interior, mas a vida que vê desdobrar-se diante de si. É sob esse ângulo que o canto, mesmo que se refira a "si mesmo", fala da "diversidade", como querem os versos de Quintana, mencionados antes.

Reveladora da generosidade do canto do poeta, que, cavalgando a montaria do poema, dá a conhecer o mundo que o envolve, é a comovente estrofe XCVI, uma das derradeiras do livro, que assim se refere aos gaúchos do passado e do presente:

Velhos gaúchos emponchados
dobram as esquinas do mundo,
reluzem botas e esporas,
abrem caminhos profundos
seu reino de trinta e cinco.
Vale hoje, a qualquer hora,
outros usam capas
e chapéu de aba larga.
revólver, adaga, facas,
são companheiros em seus alforjes,
cobertos de ausências e distância.
São peões e são gaudérios,
sem rumos,
não tem fronteiras,
perseguem estrelas,
sua luz da vida inteira.

Dizendo-se "bardo pobre", o sujeito lírico identifica-se e alia-se de certo modo com os seres e objetos a que se refere no decorrer dos Cantos de Sesmaria. O mundo - natureza e pessoas - deflagra o fazer poético, porque "tudo é esplendor e espanta no campo da sesmaria, / é onde o canto acontece em trovas e melodia". Quem percorre esse cenário, manifesta sua liberdade plena e "voa alto sua plena rebeldia".

O poeta não se entende, contudo, apenas como o rebelde que entoa os versos para celebrar a liberdade, representada pela identificação com o gaúcho que cruza os campos montado no seu pingo; é igualmente o homem apaixonado que dá vazão ao amor e à sensualidade, como nos versos em que se lê a seguinte declaração:

Amo-te tanto que vejo
sempre um rol de espanto,
e o meu canto a ti converto,
como o convexo do mar imenso,
e o léxico de tua língua
pelo corpo singrando as lides
que o sexo amplia
nos territórios selvagens.

Desde seus primeiros livros, Luiz de Miranda explicitou os paradigmas que pautam sua criação poética: a expressão da liberdade pessoal, a generosidade quando da abordagem das questões sociais, o amor como forma de relacionamento com o outro, o enraizamento no espaço urbano e sul-rio-grandense. Cantos de Sesmaria não desmente essa trajetória, mas acrescenta a ela novos padrões: o desejo de liberdade desemboca na aliança e identificação com a figura do gaúcho, enquanto sujeito independente e justiceiro; o espaço urbano, tão importante para a composição de textos como Porto Alegre, Roteiro da Paixão, cede lugar à exploração das sugestões provenientes do pampa, extensão infinita que metaforiza a autonomia almejada pelo sujeito lírico.

Cantos de Sesmaria, facultando ao poeta "cantar a si mesmo", conforme procedera em obras anteriores, permite-lhe igualmente explorar a diversidade, ampliar seu repertório e contemplar o leitor com versos fecundos e inspiradores.


(ZERO HORA / Caderno de Cultura)

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