Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Três Vezes Mitômano

02/11/2003

Publiquei, no século passado, três romances ('Cai a noite sobre Palomas', 'Viagem ao extremo Sul da solidão' e 'Fronteiras'). Sem contar um romance-reportagem, 'A prisioneira do castelinho do Alto da Bronze', que pouco cito, por falsa modéstia, pois alcançou mais repercussão que os outros. Nem por isso ganhei minha carteirinha de escritor. Cheguei, no máximo, a autor. Sou o contrário de Ivo Pitanguy, que nada publicou, mas é membro da Academia Brasileira de Letras. Como a crítica, talvez por excesso de lentidão, não me atribuiu o Prêmio Jabuti, e o Nobel sempre acaba na mão de alguém que não li, e dificilmente lerei, resolvi parar com a literatura e plantar nabos em Palomas.

Estou convencido de que meus romances me farão imortal dentro de 322 anos, quatro meses e três dias, quando eu já estiver, claro, mortinho da silva, embora vivo para um público especial, a humanidade pós-orgânica de 2300, genética e esteticamente danificada. A vida entre os nabos apresentava-se insípida, por falta de sobressaltos, então decidi escrever

três novelas ('Nau frágil', 'Ela nem me disse adeus' e 'Adiós, Baby') para acelerar o meu encontro com a Glória (uma vizinha minha, que planta rabanetes). As novelas, sob influência dos nabos e dos rabanetes, tratam só de temas sóbrios: violência, sexo, paixão e drogas. Rock não entrou por ser um tipo de música prejudicial à cultura dos nabos, embora excelente para os nababos. Meus personagens curtem mesmo é música eletrônica, algumas raves e muita química, principalmente a do amor e a das viagens na estratosfera sem sair do lugar. Tem muito salafra. As emoções, como os nabos e o preço de capa das minhas novelas, são baratas.

Um amigo tinha me sugerido mudar de hábitos. Hesitei entre um banho de loja e a horta de nabos. Escolhi assinar a Trip e a Bravo para ler nos intervalos das minhas lides no sítio. Finalmente, só uso cores cítricas e estou em sintonia com a terra. Foi aí que encontrei inspiração para as minhas três novelas. 'Adiós, Baby' é uma história policial, ambientada em Porto Alegre, em tempos de Internet e de Fórum Social Mundial. É nessa atmosfera que opera o comissário René Manhãs, um investigador iluminado e iluminista. É incrível como a relação com os nabos alterou minha forma de escrever, que se transformou numa vertigem irônica, cheia de humor, altamente coloquial e parecendo até coisa de gente viva. Nada que já não estivesse nos três romances. A diferença é que agora o leitor percebe isso. 'Nau frágil' é a travessia de um homem rumo ao seu destino. Quando alguém segue ladeira abaixo, acelerando a marcha, pode ser muito divertido e instrutivo acompanhar a sua queda, levando tudo de roldão e deixando um rastro de situações tragicômicas em seu caminho. Naufragar não é preciso. 'Nau frágil' pode ser considerada a biografia de um brasileiro, um cara preparado, em tese, para sobreviver, mesmo em São Paulo, com um par de mentiras nos bolsos e alguns truques para entrar e sair de qualquer encrenca. Infelizmente, nem os malandros podem, na atualidade, prever tudo. É hard!

'Ela nem me disse adeus' passa-se na cama. Aristóteles, grande defensor da unidade em arte, portanto, em todos os sentidos, da ausência de dispersão, não poderia se queixar. A cama é o palco de todas as histórias. Afinal, segundo a protagonista, 'é na cama que se dizem as grandes verdades'. Cada um sabe disse. Quem já não ouviu: 'Nunca foi tão bom com nenhum outro' ou 'ninguém me faz gozar como você'? Vocês acreditam, não? Pode-se mentir muito entre os lençóis, mas é na cama que as grandes verdades são confessadas. Lúria, a personagem central, assegura que pode provar isso. Na escola, porém, chamavam Lúria de espúria. Engraçado é que ninguém fala de nabos em meus livros. Menos ainda de rabanetes. Entrei com 'busca'. Nada.

Deve ser por timidez dos personagens. Nem se perguntam qual a diferença entre um nabo e um rabanete. As três novelas, cujo fio condutor é uma arqueologia das obsessões e das ilusões do cotidiano da virada do milênio, são amarradas por um título geral, 'Mitomanias', e estão sendo lançadas, pela Editora Sulina, neste final de semana, na Feira do Livro de Porto Alegre.

Vou deixar meus nabos com a Glória para espiar, de soslaio mesmo, a minha cara no Pavilhão de Autógrafos. Recuso-me a autografar em 56 línguas. O Português não quer. Imaginem só o tamanho da fila!


Juremir Machado da Silva para o CORREIO DO POVO / Porto Alegre / RS
(juremir@pucrs.br)

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