Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Leitor sempre tem razão

05/11/2003

Depois que escrevi sobre a Bienal do Mercosul, recebi 53 e-mails de leitores. Apenas três discordaram de mim. Fiquei assustado: em que será que estou errando? Diogo Mainardi, que escreve para a Veja, a maior revista brasileira, com tiragem de 1 milhão de exemplares e tempo de vida mínimo de uma semana, recebe, em média, 60 e-mails. O máximo que conseguiu, de uma vez só, foram uns 450 por uma genial coluna sobre a doença do seu filho. Com um texto que publiquei em 2002, 'O dedo de Lula', cheguei a 412, mas em quatro meses de mensagens. Arquivei. Na proporção, não estou mal. Ainda mais que Diogo é um craque, um Ronaldinho da crônica. Há gente por aqui que jura alcançar uma média imediata de 150 e-mails por artigo. Fico dubitativo.

Os últimos e-mails foram severos. Num deles, sou acusado de contradição e de autopromoção. Eu teria feito publicidade de 'Flores do mal', livro com 84 poemas de Baudelaire traduzido por mim, e de minhas novelas 'Mitomanias'. É verdade. Mas, como franco-atirador, isolado em minha trincheira, preciso gerar alguns factóides. Na mídia brasileira predomina a objetividade seletiva: aos nossos, tudo; aos outros, uma linha para que não possam nos acusar de não ter dado nada. Adorei as resenhas dos meus lançamentos publicadas nos principais veículos da concorrência hegemônica. Foram generosas, independentes e capazes de mostrar grandeza, colocando-se acima da minha própria mesquinhez crítica de traça descontente. Parabéns!

Outras seis correspondências desafiam-me a explicar por que aceitei, depois de tantas histórias tragicômicas, contadas por mim mesmo, voltar a autografar na Feira do Livro, no lançamento de 'Nau frágil', 'Ela nem me disse adeus' e 'Adiós, Baby'. Simples: ando precisando de novas histórias. Só que fracassei (foi um sucesso): não tive fila negativa nem precisei recorrer às francesas de calcinha fio-dental e às brasileiras de banda-larga. Um leitor escreveu: 'Você é tão cínico que aproveitará a minha crítica como argumento de promoção'. Dito e feito. No auge do capitalismo tardio, tudo deve ser reciclado. Depois que Toscani inventou para a Benetton o marketing em cima da tragédia alheia e o cinema brasileiro evoluiu, como mostrou Ivana Bentes, da 'estética à cosmética da fome', nada pode ser desperdiçado.

Juremir Machado da Silva para o CORREIO DO POVO / Porto Alegre / RS
(juremir@pucrs.br)

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