Editora Sulina
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Morre o historiador e intelectual Décio Freitas

09/03/2004

Morreu hoje em Porto Alegre, dia 09 de março, o historiador Décio Freitas.

Intelectual e autor de 14 livros, teve uma história de ativismo que começou nos anos 40. Com uma vida de luta e sonhos, Décio foi dirigente do Partido Comunista, com Dyonélio Machado fundou e dirigiu a Tribuna Gaúcha (primeiro diário de esquerda do Rio Grande do Sul). Foi cassado pelo Ato Institucional nº 2, logo no início do golpe de 64. Quando Jango foi derrubado, Décio presidia uma fundação federal, a Fundação Brasil Central. Acompanhou Brizola e Jango no exílio no Uruguai. Oito anos mais tarde retornou ao Brasil, onde lecionou nas universidades de Alagoas e Perambuco. Em 1979, foi presidente do Comitê Nacional da Anistia. O intelectual, o militante de esquerda como gostava de dizer: "É um currículo de esquerda, que culmina em uma posição de centro-esquerda."

Em 1994 lançou pela Sulina A Comédia Brasileira (textos publicado no jornal Zero Hora), livro que se encontra esgotado.

Em 1996, O Maior Crime da Terra - o açougue humano da rua do Arvoredo - Porto Alegre. (o livro se encontra na 4ª edição e já vendeu mais 8.000 exemplares). Neste livro o historiador Décio Freitas é original e único sob vários aspectos. Talvez Décio Freitas seja o primeiro historiador brasileiro a tratar a violência homicida não como um fait divers ou uma ocorrência policial, mas como a essência mesma da história. Para o autor, o que move a história não são as idéias, mas os instintos do animal-homem. Para ele, falharam os esforços civilizatórios que tentam espiritualizar o homem, a fim de que transcenda sua básica condição animal.

Décio Freitas exumou do passado da cidade de Porto Alegre, em meados do século XIX, um episódio tenebroso que sobreviveria no inconsciente coletivo, mas não ganharia o estatuto de História, e isso porque a cidade queria negar para si mesma aquele momento de regressão à bestialidade, na qual moradores, de forma consciente ou inconsciente, violaram o interdito segundo o qual animais não comem carne de outros da mesma espécie, ou seja, não devem praticar o canibalismo. Este livro é uma crônica de horrores inauditos, mas também um convite à reflexão do homem sobre si mesmo.




Em 1999 lançou o O Homem que Inventou a Ditadura no Brasil (3ª edição e se encontra esgotado, já vendeu 4.500 exemplares). Nesta obra usou como núcleo da narrativa a guerra civil de 1893-1895. A partir dela, reflete sobre as representações políticas e sociais. Independente de qualquer "partidarismo" com os lenços brancos ou colorados, desfaz as ilusões consagradas pela historiografia laudatória e dá continuidade ao trabalho dos autores críticos. Júlio de Castilhos e Gaspar Silveira Martins, líderes dos republicanos e dos federalistas, são tratados como "criminosos políticos". Não há complacência com aqueles que converteram a barbárie em método político. O autor lança a suspeita de que a guerra teria sido uma forma de extermínio dos gaúchos, desprezada pela elite como "gente bárbara, desordeira e assassina". Este trabalho também busca, através da reflexão histórica, resgatar o passado, pois, conforme o autor, "nestas coisas de honradez, em geral o civismo triunfa, mas a história padece".

No ano de 2003, Décio Freitas com o jornalista Álvaro Larangeira pesquisaram sobre Getúlio Vargas. O livro A Serpente e o Dragão - As dissertações acadêmicas, de Getúlio na Universidade Federal do Rio Grande do Sul foram coligidas e estudas por Décio e o pelo Álvaro.

Segundo Croce, toda história é contemporânea, ou seja, geralmente lida e interpretada à luz dos problemas e dos referenciais do presente. Mais uma razão para, no contexto da nova realidade política nacional, plena de desafios e de possibilidades, como também de possíveis frustrações, analiticamente revisitar-se a denominada "era Vargas", que alguns já pretenderam, talvez de forma precipitada, definitivamente superada.

Getúlio Vargas revela-se por vezes indefinível e mesmo enigmático, sua trajetória política refletindo as próprias flutuações e contradições do denominado projeto "nacional-desenvolvimentista". Com relação a ele, há uma espécie de unanimidade, indicando, por um lado, a ambigüidade do legado getulista e, por outro, a ausência em nossa história política de uma alternativa ao getulismo que se tenha consolidado.

Décio Freitas deixou seu último livro pronto ainda não editado. Escreveu sobre uma das mais importantes revoltas da Regência no Brasil que ocorreu no Pará entre 1835-1840, com o título de A Miserável Revolução.



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