Editora Sulina
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Tchau, Décio!

10/03/2004

Depois dos 40, chega o tempo de perder muitas pessoas queridas. Foi-se o meu pai. Partiu o irmão Mainar. Agora, morreu um grande amigo, um dos melhores, o historiador Décio Freitas, na flor dos 82 anos de idade. Vou sentir terrivelmente a sua falta cada vez que o telefone tocar ou cada vez que um Waldomiro Diniz cometer uma asneira. Décio adorava falar de política e de cultura e costumávamos debulhar os jornais em longas conversas telefônicas, nas quais o maior beneficiado sempre era eu.

Décio foi um grande historiador. 'Palmares, a guerra dos escravos' é um monumento brasileiro de pesquisa histórica, por meio do qual resgatou tudo o que hoje se tem como o mais importante da história da escravidão no Brasil. Tirou do esquecimento Zumbi e os quilombos. Foi militante do Partido Comunista, mas nunca perdeu a liberdade crítica e, nos últimos tempos, publicou belos livros de história do cotidiano, noutro registro e com muita leveza. No fundo, apaixonado por Zola e Balzac, gostaria de ter sido um romancista. E, do seu jeito, foi exatamente isso, pintando painéis históricos complexos dos nossos antepassados. Às vezes, quase brigávamos. Não durava, pois era impossível viver sem suas histórias divertidas e romanescas. Algumas, repetia sem cessar. Eu também me repetia nas minhas críticas à mídia.

Nossos jantares de sábado à noite eram no Barranco, no Copacabana ou no Spina. A escolha do local tomava algum tempo e sempre acabávamos nos mesmos endereços. Tínhamos combinado jantar na sexta-feira passada. Eu pedi que fosse no sábado. Não pôde ser. Na noite da sua morte, telefonei para ele. Conversamos ralos dez minutos, pois o achei cansado. De repente, disse-me: 'Agora, entrei na fase terminal'. Assegurei-lhe que ainda me enterraria. Perguntei se tinha parado de fumar. Jurou que sim. Mas estava fumando, o danado, enquanto falava comigo. Teve uma vida como se deve. Esse homem que viveu para contar a história dos vencidos deixou um livro não publicado, 'A miserável revolução', sobre os cabanos do Pará. Por influência dele, mergulhei numa pesquisa para um romance sobre Getúlio Vargas. Não deixa de ser estranho que eu não possa comparecer, hoje, a um encontro com Getúlio Vargas (Neto) para ir ao enterro desse amigo que me legou um pouquinho da sua paixão pelo nosso maior estadista. Até mais ver, Décio! Fico relendo teus livros.

(Juremir Machado da Silva)

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