Editora Sulina
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'Pode-se criticar Israel?'

21/04/2004

'Pode-se criticar Israel?' é o título de um livro publicado na França há dois anos. A resposta é, cada vez mais, não. O grande intelectual francês Edgar Morin, de origem judaica e combatente da resistência ao invasor nazista na França ocupada dos anos 1940, tornou-se a mais nova vítima dessa interdição. Num artigo publicado pelo jornal Le Monde, Morin destacou o paradoxo de Israel: a nação do povo humilhado e segregado em guetos pelos nazistas estaria fazendo o mesmo, hoje, com os palestinos.

Por causa disso Morin foi acusado de anti-semita e de fazer apologia do terrorismo. Abriu-se um processo judicial contra ele, que será julgado no próximo dia 12 de maio pelo Tribunal de Nanterre. Morin denunciou a mais tradicional chantagem israelense, a de que condenar a política do Estado de Israel é agredir o povo judeu. A máquina de censurar e de intimidar a liberdade de pensamento colocou-se imediatamente em movimento. O resultado poderá ser um tiro pela culatra. Intelectuais de renome, do mundo inteiro, saíram em defesa de Edgar Morin. Pouca gente tem a folha de serviços e a coerência de Morin na defesa da liberdade. Nascido em 1921, desde a adolescência ele se dedica à luta contra todas as formas de opressão. Durante a Segunda Guerra Mundial, esteve na resistência ativa e armada contra os alemães. Depois, continuou, com idéias sempre mais inovadoras, a guerra contra as desigualdades e os monopólios da verdade. Sua obra-prima, 'O método', é uma suma de filosofia, de sociologia, de epistemologia e de política compreensivas.

Israel, que não é a encarnação da 'judeidade', mas um Estado com suas políticas e interesses, tem-se defendido do terrorismo com 'terrorismo de Estado'. Ninguém é processado por afirmar que os Estados Unidos estão praticando terrorismo de Estado contra os iraquianos. Não é lícito, portanto, que se use a memória do Holocausto como argumento de politicagem e de exclusão dos direitos dos outros. A solução para o conflito no Oriente Médio, qualquer um sabe disso, começa pelo pronto reconhecimento do Estado palestino. O resto da conversa vem depois. Edgar Morin, mais uma vez, prestou um grande serviço à liberdade de expressão. Espera-se que, depois do seu grito, a tentação de silenciar os críticos de Israel não use mais, indiscriminadamente, o falso argumento da rejeição ao anti-semitismo. Isso é terrorismo intelectual.

Juremir Machado da Silva
para o CORREIO DO POVO / Porto Alegre-RS
(juremir@correiodopovo.com.br)

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