Editora Sulina
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Metamorfoses da cultura liberal

28/04/2004

Eu já fui muito criticado por escrever sobre livros que eu mesmo traduzi, embora nunca tenha tratado das minhas traduções, mas só do conteúdo das obras. Em compensação, vi um cronista ser muito aplaudido por ter escrito sobre seu drama de hemorróidas, sob o título de 'Problema de fundamentos', numa ótica universal, claro. Prefiro ser criticado. 'Metamorfoses da cultura liberal' (Sulina), de Gilles Lipovetsky - um dos mais importantes ensaístas europeus da atualidade, autor do best-seller 'O império do efêmero', sobre a moda nas sociedades democráticas -, é um texto que liberais e esquerdistas inteligentes precisam ler.
Lipovetsky trata, nesse livro, de mídia, ética, negócios, livre iniciativa, mercado e filosofia. Não sobra nada em pé dos clichês da velha esquerda sobre esses temas. Não acontece, tampouco, um elogio do cinismo neoliberal. O caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, numa entrevista de três páginas com Lipovetsky, destacou o aspecto renovador do seu pensamento hipermoderno. Com 'Metamorfoses da cultura liberal', a esquerda aprende a ficar mais sofisticada quanto aos assuntos tratados e a direita se municia para ser menos rasteira. É um casamento perfeito.
O pessoal do Fórum da Liberdade poderia ler Gilles Lipovetsky e trocar de gurus. Ganharia em fluidez, elegância, capacidade de argumentação e tolerância. A esquerda modernosa podia fazer o mesmo. Ficaria mais leve, sintonizada com o nosso tempo e livre de certas contradições que a fazem parecer uma esquizofrênica que perdeu o trem da história. A leitura de Lipovetsky levaria, enfim, José Alencar, Lula, Meirelles e José Genoíno a falarem a mesma linguagem. O mesmo vale para os críticos da mídia. Lipovetsky não absolve a imprensa de tudo, mas também não a condena. Renova a maneira de analisar a relação entre informação e entretenimento.
É um livro pequeno, uma centena de páginas, que sintetiza outras obras do autor e avança na precisão dos argumentos. Jornalistas deviam se jogar sobre ele em desespero de causa, pois é um dos poucos estudos que consegue, ainda, mostrar que há vida inteligente na mídia e dar nobreza à cultura atual, com top models, celebridades, espetáculo e paixões de verão. Só não resolve 'problema de fundamentos'. Assegura que dá para viver sem. Com jeito.


Juremir Machado da Silva
para o CORREIO DO POVO / Porto Alegre-RS
(juremir@correiodopovo.com.br)


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