Editora Sulina
0

    Sua sacola está vazia.

Na pós-Internet, o pós-sujeito (Wolton)

05/04/2004

Desde que começou a se expandir na sua versão comercial, há pouco mais de 10 anos, a Internet tem sido classificada como um tipo de mídia, concorrente ou complementar, mas sempre comparada aos jornais, à televisão e ao rádio. No entanto, com suas inúmeras possibilidades de serviços como banco, shopping e pesquisa, a Internet é muito mais do que uma plataforma de distribuição de conteúdo. É o que o francês Dominique Wolton sustenta em "Internet, e depois? - uma teoria das novas mídias" (232 páginas, R$ 34), um dos três bons lançamentos da editora Sulina sobre cibercultura. Sociólogo do Centro Nacional de Pesquisas da França, Wolton faz questão de não ser apocalíptico em relação às novas tecnologias, numa oposição evidente a seus conterrâneos Jean Baudrillard e Paul Virillio, ambos críticos ferozes da presença da tecnologia de informação na sociedade contemporânea.

O autor prefere chamar a rede de "sistema de informação" por três razões fundamentais. Primeiro, pelas suas funções. Wolton lembra que a Internet agrupa tipos e estatutos diferentes de informação, e oferece inúmeras possibilidades de expressão, como fóruns e chats, coisa que jornais e TVs não fazem. Em segundo lugar, ele aponta a inserção social. Enquanto a grande imprensa é regulada por leis que remontam há mais de 50 anos, os códigos da tecnologia de informação ainda estão em construção. Por fim, a terceira diferença é o que ele chama de "falta de prestígio cultural" do universo dos computadores. Com essas três distinções, Wolton é crítico sem ser virulento. Por isso, o melhor capítulo do seu livro trata do indivíduo diante das novas mídias. É coisa para fazer o leitor se identificar de imediato: "Milhares de indivíduos saem assim, celular à mão, correio eletrônico conectado e secretária eletrônica ligada como última medida de segurança. Como se tudo fosse urgente e importante, como se fosse morrer caso não pudesse ser encontrado a qualquer instante."

Ainda que preste atenção na influência do celular como tecnologia de informação capaz de transformar completamente os hábitos sociais, Wolton é mais um dos autores que olha com mais atenção para a rede mundial de computadores do que para esses pequenos aparelhos tão enfiados na rotina que já passam despercebidos. É exatamente essa transparência da mudança radical que o telefone celular trouxe que faz dele uma tecnologia tão revolucionária. Ser encontrado em qualquer lugar, a qualquer tempo, independente do suporte físico de uma linha telefônica, foi certamente a inovação mais radical que as tecnologias de informação produziram nas últimas décadas. Não por acaso, a tão falada convergência das mídias já é realidade nos pequenos telefones que fotografam, enviam email e exibem vídeo, e ainda não conseguiu se materializar em equipamentos mais completos, como o computador ou a TV.

De qualquer modo, uma das grandes qualidades do livro de Wolton é a sua capacidade de expor um pensamento crítico sem ser obrigatoriamente contra. "Internet, e depois?" preenche a lacuna de pensar a rede de computadores não exclusivamente de um ponto de vista - o de mais uma mídia - para refletir sobre sua ampla e cada vez maior presença na vida cotidiana.

Por Carla Rodrigues (carla@nominimo.ibest.com.br)

Link: