Editora Sulina
0

    Sua sacola está vazia.

Flores para todos os males

19/05/2004

Sempre que venho a Paris releio alguns poemas de Charles Baudelaire. É algo que me faz entrar, antes mesmo de descer do avião, no clima da cidade. Desta vez, antes de embarcar, eu estava sem tempo e pensava em não cumprir o ritual. Mas três leitores, numa coincidência que me lembrou o tema tão caro a Baudelaire das correspondências, enviaram-me mensagens divertidas sobre a minha tradução de 84 poemas de 'Flores do mal' (Sulina). Se eu tivesse de escolher, entre tudo o que já fiz na vida, uma coisa a repetir, pelo prazer, verdadeiro êxtase intelectual, seria traduzir Baudelaire.
A primeira mensagem é de um homem, A. C., que me assegura nunca ter se dado tão bem com as mulheres quanto depois que começou a usar 'Flores do mal' como presente de sedução. Diz que é tiro e queda. Não posso contestar nem confirmar, pois, casado que sou, nunca usei o livro com esse fim. Nem sequer para fazer um teste. Segundo o leitor, Baudelaire mexe com a libido das jovens atuais. Chega até a apresentar alguns dados estatísticos: o efeito seria maior na faixa de 23 a 31 anos. Mas também considerável, embora com outros poemas, na faixa de 33 a 44 anos de idade. Espero que o IBGE se pronuncie.
O segundo leitor, Maria Cristina Franco, garante que Charles Baudelaire é capaz de nos arrancar do torpor do cotidiano e de inocular um antídoto contra o politicamente correto. Tenho certeza disso. Alheia ao conteúdo erótico da poesia de Baudelaire, a leitora se diz fascinada pelo poder da palavra incendiando a página. Exige que eu não me acovarde e tenha a 'generosidade' de comentar o seu recado. Feito. O último leitor, Júlio Cerqueira, me condena severamente por não ter feito uma tradução de todos os poemas e me acusa de preguiça e de indolência. Repete algo que eu disse em algum momento e que continua a ser o meu credo: o tradutor é como um árbitro de futebol, só vai bem se ninguém o notar.
Em Paris, meu primeiro encontro não é com Baudelaire, mas com um desconhecido dos brasileiros, o poeta Jean Baudrillard, de 'O anjo do estuque', traduzido por Cristina Lacerda e Adalgiza Campos da Silva: 'Atrás das persianas/ sem persianas/ agitação amorosa/ limitação segunda/ e tudo é reversível./São as figuras de estuque/ especiosas e estridentes/ as ruelas levando aos pátios transversais/ para nos receber'.
(Juremir Machado da Silva para o CORREIO DO POVO - Porto Alegre / RS)
juremir@correiodopovo.com.br

Link: