Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Paris na primavera

23/05/2004

Nem o sol consegue ofuscar o brilho das polêmicas intelectuais em Paris. É verdade que os franceses adoram dizer que as polêmicas terminaram, o que gera enormes polêmicas e dezenas de livros polêmicos a cada ano sobre o fim das polêmicas. O mundo de língua inglesa, por despeito, certamente, gosta de dizer o mesmo sobre a decadência das polêmicas francesas, o que não provoca nenhuma polêmica, mas se impõe como uma certeza ideológica e vazia. Seis dias de sol, primavera e árvores floridas em Paris, com direito a piquenique com velhos amigos no Buttes-Chaumont e leituras matinais no Jardin du Luxembourg. Nos primeiros dias ensolarados, Paris fica com uma deliciosa cara de domingão em família, ainda mais num feriado, com multidões brancas e flácidas de pais, filhos, noras, genros, cães e turistas espalhando-se pela beira do Sena, ocupando a sombra de cada plátano, rolando nos gramados e fotografando, filmando, fotocopiando a vida ao vivo. Adoro esse nomadismo pós-moderno com passagem marcada, mesmo se um sanduíche com queijo sai por R$ 60,00.

Alain Robbe-Grillet entrou para a Academia Francesa. Para se mostrar ainda rebelde, não quer vestir o fardão na posse. Perguntei-lhe o que acha da obra de Julien Gracq, um dos autores mais cults do surrealismo literário. Soltou uma frase assassina: 'Gracq praticou uma variante do Novo Romance sob a forma de metafísica popular'. Assim é a França. Mesmo quando o esplendor já passou, o verbo ainda faz pequenos milagres. Edgar Morin cancelou uma viagem ao Brasil por causa da doença da mulher. Mas estava feliz, embora cansado, por ter sido absolvido no processo que sofreu por ter criticado a política totalitária de Israel. Ainda não terminou a discussão sobre a proibição do véu nas escolas públicas e está ardendo o debate sobre o casamento homossexual. O ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin saiu do mutismo para avisar que é contra. Yves Simon foi buscar polêmica escrevendo um perfil de Lou-Andreas Salomé, a mulher que enfeitiçou Rilke, Nietzsche e Freud. Deu só para o primeiro. Mas Yves provoca ainda mais polêmica por tomar café todas as manhãs no célebre Deux-Magots, em Saint-Germain, onde degustamos juntos um bom Chablis, o que enfurece os amantes da literatura marginal.

A grande polêmica do momento na França chama-se o 'caso Houellebecq'. O autor de 'Partículas elementares' e de 'Extensão do domínio da luta' foi contratado pela editora Fayard a peso de euros e apresentado a 25 executivos da empresa como 'o fenômeno'. Seu próximo romance, 'Uma ilha', já faz babar de raiva os que o odeiam e gozar os que o amam. Houellebecq declarou ter ganho uns 15 milhões com seus livros e não ter grande apreço pela humanidade. Vende e fascina. Olivier Bardolle escreveu um ensaio para dizer simplesmente que a França, nos últimos cem anos, teve apenas três grandes escritores: Marcel Proust, Céline e Michel Houellebecq.

A França mais parece uma queimada depois disso. É fumaça para todo lado. A tese de Bardolle é impecável. Proust e Céline foram os melhores porque não adulavam os leitores medíocres nem cortejavam a massa. Tinham estilo e enterravam o dedo nas feridas sociais. Proust descreveu a decadência da aristocracia. Céline antecipou o horror. Michel Houellebecq, conforme Bardolle, segue o mesmo caminho e já é o grande escritor da 'era do vazio'. Tudo o que este modesto cronista, introdutor de Houellebecq no Brasil, vive dizendo, embora este tipo de auto-reconhecimento seja evidentemente antipático.

Houellebecq, como Proust e Céline, sabia de uma coisa: o texto literário nunca deve imitar o texto jornalístico. A clareza do jornal é a mediocridade da ficção. Se os leitores querem palavras de conforto, bons sentimentos e estímulos para vencer na vida, devem ler os editoriais da grande imprensa. Nada mais edificante e moralista. A boa literatura é suja e sem moral. Primavera na França tem um pouco disto: um vinho alsaciano com Maffesoli, uma boa conversa com Jean Baudrillard sobre o seu 'Pacto de lucidez, a inteligência do mal' e uma reunião do conselho de redação da revista Hérmès, dirigida por Dominique Wolton, na qual se discutiu como resistir à traição dos intelectuais que desejam impor o inglês como língua científica. Nada como a boa e velha decadência francesa.



(Juremir Machado da Silva para o
CORREIO DO POVO - Porto Alegre / RS)
juremir@correiodopovo.com.br

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