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Da pós à hipermodernidade

11/09/2004

(Jornal do Brasil)
Em dois livros, o filósofo francês Gilles Lipovetsky tenta provar que o mundo está vivendo uma nova era


Jorge Barcellos*


AFP

Hipermodernismo: mundo contemporâneo teria elevado modernidade à milésima potência


Os tempos hipermodernos
Gilles Lipovetsky
Barcarolla
136 páginas
R$ 33

Metamorfoses da cultura liberal: ética, mídia e empresa
Gilles Lipovetsky
Sulina
páginas
R$ 22



Duas novas obras de Gilles Lipovetsky chegam as prateleiras. A primeira, Metamorfoses da cultura liberal: ética, mídia e empresa é uma boa alternativa ao receituário neoliberal vinda de dentro deste próprio receituário. De fato, Lipovetsky é um raro caso de pensador liberal: defende a mídia como fator de democratização e as possibilidades da valorização da ética nas empresas. A segunda, Os tempos hipermodernos (Barcarolla), é uma síntese do pensamento do autor e analisa as formas de desorientação que marcam a passagem da modernidade para a pós-modernidade - expressão que Lepovetsky acaba ultrapassando com a proposta do nascimento da hipermodernidade.

O autor é conhecido dos brasileiros por A era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo e O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Nascido em Millau (Avyron), província francesa, em 1944, estudou no Liceu Michelet e diplomou-se em Filosofia, ensinando esta disciplina no Lyceé d'Orange, entre 1969 e 1971.

Na década de 60, entrou em contato com o periódico Poder Operário, facção oriunda do grupo Socialismo e Barbárie. Ali Lipovestky encontrou Lyotard, Lefort e Castoriadis e se viu às voltas com Nietzsche, Deleuze e Henry Miller.

Hoje Lipovetsky é professor de Filosofia no Liceu Emmanuel Mounier, de Grenoble, e um dos pensadores que tematizam a sociedade e o indivíduo pós-modernos. Em A era do vazio, obra que o lançou definitivamente no cenário intelectual - com os primeiros direitos autorais, presenteou-se com uma prancha de windsurf! - definiu a identidade do homem moderno a partir das mudanças das formas de socialização mundial nos anos 50. Em O império do efêmero, estudou a moda como viés para compreender nossa época, interessando-se por questões novas, como o luxo ou a ética comercial. Finalmente, em O crepúsculo do dever, indagava sobre a Ética depois da quebra de todos os valores.



Lipovetsky compartilha com Baudrillard, Mafessoli e Lyotard a idéia de que a condição pós-moderna é uma nova época marcada pelo predomínio do individual sobre o universal, a diversificação dos gostos, a lógica do consumo, o esgotamento do impulso modernista para o futuro e a desaparição da crença nos discursos totalizantes. O indivíduo se realiza consumindo-se em um processo vertiginoso de imprecisão existencial e de autofagia permanente, e daí o vazio apoiado num direito considerado supremo e inquestionável, o direito de realizar-se. Como Cristopher Lash, Lipovetsky vê um novo personagem, o narcisista, indivíduo não comprometido, irreverente e ávido de juventude, cuja socialização se apóia na indiferença e na apatia. Isso produz uma alienação ampliada, superior a alienação marxista. Lipovetsky critica o funcionamento do marxismo, que, por um excesso de atenção sobre si mesmo, faz com que a identidade do indivíduo se dessubstancialize.

O mote de Metamorfoses.. nasce em O crespúsculo do dever: é de novo Lipovetsky ampliando e aprofundando o tema a ética. Ele parte da observação de que, nos últimos anos, a ética tem sido o grande força e tema social. Não se trata do retorno de uma ética tradicional, fundada na Ilustração, mas uma ética que possui novas bases, uma nova maneira de relacionar-se com os valores, ''uma nova regulação social da moral tão inédita que constitui uma nova fase na história da ética moderna'', diz. Lipovestsky descarta a ética como tábua da salvação e critica atuações superficiais, revelando a busca de uma ''ética inteligente'', menos preocupada com a teoria e mais com resultados práticos, minimalista e pragmática, que saiba atender os interesses pessoais na justa medida.

Metamorfoses... é a reunião de quatro conferências feita pelo autor no Canadá em novembro de 2001, quando foi homenageado pela Faculdade de Teologia, Ètica e Filosofia da Universidade de Sherbrooke. O primeiro texto é intitulado ''Narciso na armadilha da pós-modernidade'' e retoma temas de suas considerações sobre o gozo desenfreado do individualismo contemporâneo. O segundo texto, ''Morte da moral ou ressurreição dos valores: que ética para hoje'', mostra o retorno de uma autêntica exigência ética a partir do novo contexto econômico, político e ideológico da segunda metade dos anos 80. ''Alma da empresa: mito ou realidade'', terceiro texto da coletânea, mostra que a responsabilização coletiva é real e dela faz parte também o mundo econômico. O último texto, ''Deve-se culpar a mídia?'', indaga se ela é realmente a causa indiscutível da decadência das sociedades liberais.



A idéia de que a ética é essencial ao universo das empresas é central no argumento do autor. Lipovestky mostra que é um erro de marketing desconsiderar certos valores na promoção das empresas junto a eventuais clientes: ela diz respeito também aos empregados, já que motivar o pessoal traz benefícios recícprocos para patrões e funcionários. ''Essa atitude começa a mudar, ao menos, ideologicamente. Em algumas décadas, o respeito aos princípios da moral tornou-se a condição para sucesso a longo termo dos negócios, o motor de uma empresa eficiente, fazendo parte das necessidades do comércio e do próprio capitalismo'', afirma. ''A guerra econômica está centrada nos homens.''



Tempos hipermodernos, que recebe tradução no Brasil no mesmo ano de seu lançamento na França, inaugura um novo momento do pensamento do autor. Lipovetsky deixa de orientar-se pelo conceito de pós-modernidade para substitui-lo pelo de hipermodernidade. A obra é na verdade um pequeno ensaio do autor, intitulado ''Tempo contra tempo, ou a sociedade hipermoderna'', precedido de um ensaio de Sebastien Charles e uma entrevista.



Para quem construiu sua história intelectual associada ao conceito de pós-moderno, a defesa da hipermodernidade representa uma novidade . Explica o autor: ''Há 20 anos, o conceito de pós-moderno se deu sob o signo da descompressão cool do social; agora, porém, temos a sensação de que os tempos voltam a endurecer-se, cobertos que estão de nuvens escuras. No momento em que triunfam a tecnologia genética, a globalização liberal e os direitos humanos, o rótulo pós-moderno já ganhou rugas, tendo esgotado sua capacidade de exprimir o mundo que se anuncia.''



Para Lipovetsky, o pós-moderno, se usado hoje, dirige seu olhar para um passado ''Essa época terminou. Hipercapitalismo, hiperclasse, hipermercado, hipertexto - o que mais não é hiper? O que mais não expõe uma modernidade elevada a potência superlativa'' questiona. Fuga para adiante, modernidade elevada à potência, concretização do liberalismo globalizado, mercantilização generalizada dos modos de vida.'' Tudo se passa como se tivéssemos ido da era do pós para a era do hiper. Nasce uma nova sociedade moderna. Modernização da própria modernidade, a ascensão do imperativo de eficiência e do seu correlato, necessidade de sobrevivência. Mas essa época, assinala o autor, é também aquela ''reconciliada com seus princípios de base (a democracia, os direitos humanos, o mercado).''

Ao final, Lipovetsky revela sua verdadeira faceta: a de um conciliador. Ele reconhece que o mercado globalizado produz injustiças, mas acredita que ele é crítico suficiente para autocorreção e para defesa do universo democrático ''A era presentista está tudo menos fechada, encerrada em si mesma, dedicada a um niilismo exponencial. Dado que a depreciação dos valores supremos não é sem limites, o futuro continua em aberto. A hipermodernidade democrática e mercantil ainda não deu seu canto do cisne - ela está apenas no começo de sua aventura histórica.'' Tomara que assim seja.



*Doutorando em Educação e coordenador do Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre

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