Editora Sulina
0

    Sua sacola está vazia.

Henri-Pierre Jeudy, toda modernidade termina em ironia

18/08/2007

Ainda somos ou não modernos? Essa pergunta, aparentemente abstrata, povoa a mente dos intelectuais. O norte-americano Marshall Berman e o francês Henri-Pierre Jeudy - palestrantes desta terça-feira, 21 de julho, às 20h, no ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul Cultural, com apoio da PUCRS, da Unisinos, da Uergs e da Ufrgs - pensam a modernidade de modos diferentes. Dessa divergência, certamente sairá o melhor para a platéia. O encontro acontecerá no Salão de Atos da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul. A modernidade vai realmente separar e unir os dois conferencistas. Primeiro, com o tema: 'As utopias na urbe contemporânea'. Depois, por força da tecnologia. Jeudy estará presente de alma e corpo. Berman, vetado pelo médico, terá participação virtual, com um vídeo gravado com a sua intervenção. A força dos argumentos será a mesma.

Henri-Pierre Jeudy é um fino analista dos costumes contemporâneos. A melhor prova disso é o seu romance, 'O último cigarro' (Sulina, 2007), sobre a dependência do homem moderno ao tabagismo. Na verdade, o livro é uma metáfora das dependências e fragilidades dos homens de hoje. O cigarro seria apenas uma das tantas muletas que já não podem ser usadas tranqüilamente por seres à deriva, cujas utopias desmoronaram e cujos suportes mais banais se revelam também perigosos. Sociólogo, professor de estética, diretor do Laboratório de Antropologia das Instituições e Organizações Sociais (Laios), que faz parte do poderoso CNRS, o centro nacional de pesquisa da França, Jeudy é autor de 'A ironia da comunicação' (Sulina, 2001), 'O corpo como objeto de arte' (Estação Liberdade, 2002) e 'O espelho das cidades (Casa da Palavra, 2005). Para quem lê francês, é possível divertir-se com 'L'Art de ne pas être grand-père' (a arte de não ser avô) e instruir-se ou destruir-se com os ensaios 'Le corps et ses stéréotypes', 'La culture en trompe-l'oeil' e 'Les usages sociaux de l'art'.

Muniz Sodré, presidente da Biblioteca Nacional e com certeza o mais importante teórico brasileiro da Comunicação, define Henri-Pierre Jeudy como 'um autor que joga nas 11 em matéria de ciências sociais'. Sodré sabe do que fala, pois é um baiano radicado no Rio de Janeiro, pai-de-santo, bom de capoeira e de caratê, cheio de ginga e de jogo de cintura. Segundo ele, Jeudy vai da sociologia à antropologia, passando pela literatura e pelo ensaio filosófico, com a mesma originalidade e pertinência. A especialidade de Jeudy é o contrapé. Ele sabe como poucos perceber o avesso de uma obra, de um discurso, de uma filosofia de vida com pretensões uniformizadoras. Em poucas palavras, sabe revelar o quanto de conversa fiada há nas afiadas conversas eruditas e pretensamente científicas.

Em 'A ironia da comunicação', seu melhor livro, Jeudy põe em confronto ironia e humor e indica o quanto precisamos de ambos para suportar a retórica vazia do poder, da mídia e das instituições que nos domesticam e controlam. A ironia é uma 'estratégia comunicacional', uma maneira de virar o jogo para pegar o adversário desarrumado. Na ironia há sempre uma transgressão que faz das próprias utopias - certamente o tema mais sério e menos palpável das ambições modernas - um objeto de deboche. O riso é uma arma fatal contra a qual não existe antídoto. Jeudy precisa essa idéia: 'Tudo pode ser desarmado pelo riso... Alguém que não pára de rir inquieta, irrita como se o tique nervoso nada tivesse de jubilatório'. O riso desestabiliza e mostra o ridículo escondido em boa parte das mais sérias pretensões ao melhor para todos.

A modernidade era séria. Acreditava profundamente nas suas piores e melhores piadas. A modernidade riu de tudo, com razão, mas não riu de si mesma. Conforme Jeudy, 'tem-se freqüentemente o humor por uma qualidade de espírito mais sutil do que a ironia (...) ser capaz de rir de si mesmo. A ironia parece mais maldosa, mais pérfida (...), uma arma voltada contra os outros'. A modernidade seria irônica. Falso. Jeudy sustenta que há um preconceito nisso. A ironia é uma resposta radical, nascida de um momento de 'sabedoria louca', às arbitrariedades do nosso mundo. Nesse sentido, ela cria comunidade, mantém unidos aqueles que participam da sua visão de mundo, recusando o absurdo com uma inversão de sentido que gera uma novo absurdo. Nos tempos que correm, neste Brasil absurdamente moderno, somente o absurdo hipermoderno salva. O resto não passa de utopia.



--------------------------------------------------------------------------------

Marshall Berman, toda ironia termina em modernidade

Intelectual humanista e engajado, Marshall Berman deslumbrou a esquerda fashion (visto que caviar não é o nosso forte) brasileira com seu livro 'Tudo o que é sólido desmancha no ar - As aventuras da modernidade' (1986). A obra saiu pela Companhia das Letras. Como se sabe, os neomarxistas tupiniquins amam livros caros ou reservados a uma elite e consideram cult tudo aquilo que a 'Companhia' publica. O Unibanco agradece. Nascido em 1940, em Nova Iorque, Marshall Berman estudou na Bronx High School of Science e nas universidades de Columbia, Oxford e Harvard. Tornou-se professor de Ciência Política no City College da Universidade de Nova York. Mescla de crítico literário e cultural, pôde praticar algo exótico e só reservado aos professores universitários nos Estados Unidos: o marxismo.

A partir de uma frase coletada no 'Manifesto comunista', de Karl Marx e Engels, 'tudo o que é sólido desmancha no ar', Berman partiu em luta contra a pós-modernidade, então um monstro açoitando com o seu rabo de fogo as portas da sacrossanta modernidade e as suas promessas de racionalidade, emancipação, verdade, bem, belo e igualdade. O Muro de Berlim ainda não havia caído (a edição original do livro é de 1982) quando Berman saiu do anonimato acadêmico para o estrelato autoral como um defensor cultural do marxismo já bastante abalado na sua vertente econômica e política. Tudo aquilo que Berman diz no seu livro sobre a modernidade - 'ser moderno é viver uma vida de paradoxo e contradição' ou 'a ironia moderna se insinua em muitas das grandes obras de arte e pensamento do século passado' - pode ser aplicado à pós-modernidade. Tudo aquilo que ele sugere sobre a pós-modernidade - sectarismo, mística e ideologia - pode ser aplicado à modernidade. A diferença reside no fato de que um pós-moderno sabe que a contradição é um dado intemporal da existência, enquanto os modernos gostariam de superá-la por meio de revoluções.

O moderno acredita num padrão e numa pureza estética. O pós-moderno é barroco, eclético, relativista e duvida de toda vontade padronizadora. Acredita na força da diferença. Berman jogou fora todos os intelectuais que nos anos setenta do século XX criticaram a modernidade: 'O único escritor da década passada que tinha realmente algo a dizer sobre a modernidade foi Michel Foucault. E o que ele tem a dizer é uma interminável, torturante série de variações em torno dos temas weberianos do cárcere de ferro e das inutilidades humanas, cujas almas foram moldadas para se adaptar às barras'. Não deixa de ser um bom comentário em relação ao pensamento de Foucault, mas também não deixa de ser um grande engano em relação ao pensamento de homens como Jean Baudrillard, Jacques Derrida e Edgar Morin. Na verdade, Berman só exprimiu a velha arrogância moderna.

A pós-modernidade chamou para si o dionisíaco em meio à barbárie (a festa, o jogo, o caos, a agitação urbana, a impossibilidade de uma verdade absoluta sobre o vivido). A modernidade de Berman, embora descrevendo a contraditória efervescência moderna, apostou no apolíneo (a racionalidade, a sistematização, a cientificidade, a luz do dia, a transparência total). Brasília é um projeto moderno. Salvador e Rio de Janeiro já nasceram pós-modernas, com seus becos, atalhos e morros. Mas o modernismo de Brasília vem sendo desnaturado pelo pós-modernismo barroco do Brasil. Essa é a maior ironia da cultura brasileira: nosso pós-modernismo antropofágico e 'avant la lettre' dizima qualquer pretensão racionalizadora purista e totalizante.



--------------------------------------------------------------------------------

As aventuras do (des)conhecimento

Afinal, de uma vez por todas, o que significa ser moderno? Antes de tudo, crer que sabemos para onde estamos indo. A modernidade baseia-se em três eixos: racionalidade, autonomia e igualdade. E em três esperanças: futuro, progresso e liberdade. Em princípio, quem poderia criticar tais crenças ou expectativas? Os pós-modernos, contudo, alegam que imaginar uma sociedade totalmente racional, destituída de mitos, de ilusões e de religião, é mais do que uma ilusão. É perigoso e irracional. Da mesma forma, no entender dos pós-modernos, o homem nunca chega a ser totalmente autônomo e livre. A igualdade completa também impossível. Além disso, o culto do progresso e do futuro redentor trouxe melhorias e também novos e graves problemas: destruição do meio ambiente, poluição, armas de destruição em massa, novas doenças, novos e velhos perigos.

Não sabemos para onde vamos. Henri-Pierre Jeudy, porém, lembra que o jogo social impõe que alguns atores finjam ter o controle da situação: 'Se um governante disse publicamente, 'não sabemos onde vamos', ele não permaneceria mais muito tempo no governo'. Mas o mais próximo da verdade é que sempre avançamos em meio a certa neblina. É ainda Jeudy quem explica: 'O jogo político consiste em manter a taxa máxima de credibilidade mesmo se os acontecimentos vêm confirmar que as decisões tomadas são ineficazes ou caducas. O princípio do discurso político é de descrever uma realidade que deveria ser outra que a que é'. Nesse sentido, boa parte das críticas à incapacidade de um governo de prever certas coisas é redundante. A ambição moderna era de eliminar a incerteza, o risco e o imprevisto. É a utopia de uma sociedade perfeita e limpa.

Marshall Berman, com bom marxista, ainda sem as certezas grosseiras dos marxistas vulgares, voltou ao texto sagrado, a obra de Karl Marx, conforme suas palavras, 'não tanto por suas respostas, mas por suas perguntas'. Ele foi buscar em Marx 'o caminho mais seguro e mais profundo' para entrar no cerne das contradições modernas'. O leitor não perde refletindo sobre esta passagem de Berman a respeito de Marx e da superação das tais contradições da modernidade: 'Ele sabia que precisamos começar do ponto onde estamos, psiquicamente nus, despidos de qualquer halo religioso, estético ou moral, e de véus sentimentais, devolvidos à nossa vontade e energia individuais, forçados a explorar aos demais e a nós mesmos para sobreviver'.

No conhecimento, como gosta de dizer Edgar Morin do alto dos seus 86 anos, há muito de desconhecimento e de cegueira. Nunca sabemos exatamente o que sabemos e falta-nos humildade para reconhecer essa fronteira. Pior ainda, desconhecemos o quanto desconhecemos em nossa aventura em busca do saber. A exemplo do político, no entanto, o intelectual moderno sempre finge saber para onde estamos indo, sob pena de frustrar os seus leitores. Afinal, um intelectual sem público perde todo o seu poder.


(Juremir Machado da Silva para o Correio do Povo - Porto Alegre - RS)

Link: www.correiodopovo.com.br