Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Um escritor em Barcelona

04/10/2007

Estou na Espanha como convidado da Biblioteca Nacional do Brasil para participar da Feira do Livro de Barcelona. Eu sou um mistério insondável. Ninguém lê os meus livros. As vendas são diminutas. Mas as editoras nunca se recusam a me publicar e não faltam convites para que eu fale de livros que ninguém viu, ninguém leu, ninguém conhece. Meu único livro de repercussão é 'Getúlio'. Ficou algumas semanas na lista de mais vendidos da revista Veja. Acho que os compradores não haviam percebido o meu nome escrito na capa. Quando se deram conta, as vendas cessaram. Vai sair em breve em edição de bolso de 'Getúlio' pela Record. No campo acadêmico, meu livro 'As tecnologias do imaginário' sairá na França, em 2008, por uma editora chique, La Table Ronde. Pobres franceses! Dentro de uns 200 anos, serei, com certeza, uma celebridade literária globalizada. O único problema é que não estarei presente para receber os polpudos cheques de direitos autorais nem para explicar os meus processos criativos originais a jovens e talentosas candidatas a escritoras deslumbradas por mim. Uma pena!

Já falei sobre tudo, como entrevistado ou debatedor, na mídia brasileira. Na televisão, discorri até sobre 'agosto, mês de desgosto'. Diga-se de passagem que, como especialista no assunto, deixei o apresentador encantado. O meu desempenho foi tão bom que acabei convidado para duas conferências sobre esse tema. Nunca, porém, quiseram me ouvir sobre a minha produção literária. Estão cobertos de razão. Quando eu falo assim, alguns leitores afoitos saem gritando: 'Lá vem o sofrenildo, o chato, o chorão...'. Não me subestimem. Eu sou bem pior. Um megalomaníaco incorrigível. Para mim, isso tudo prova o quanto eu estou à frente do meu tempo. No mínimo, uns cem anos. Quase no século XIX. Em feiras e salões do livro no exterior, em Paris, Frankfurt ou agora, Barcelona, eu adoro observar os anônimos famosos ou os famosos anônimos que andam entre os estandes com ar de cusco que desabou do caminhão.

É muito comum que se façam acompanhar do cônjuge. Se o escritor é o homem, lá vai a mulher um pouco atrás tentando agarrá-lo para que não pegue o caminho errado. Se é a mulher, o homem vai ao seu lado, olhando para cima, como se quisesse mostrar a todos que está ali por acaso. Andam quilômetros no espaço da feira em busca de um conhecido. Finalmente, encontram um compatriota a quem podem contar o quanto são importantes no estrangeiro. Ou ficam no bar do evento girando a cabeça para todos os lados, correndo o risco de um torcicolo, na tentativa de localizar um improvável leitor. Não é raro que participem de uma mesa com outros brasileiros, diante de cinco ou seis brasileiros expatriados e saudosos, que fazem perguntas sobre Paulo Coelho, Chico Buarque e até sobre o final da novela.

Um dos momentos mais empolgantes é o da retirada da credencial para entrar sem pagar na feira. O visitante estufa o peito, enche os pulmões de ar puro e, com voz clara, responde à pergunta, expositor ou autor?, com um sonoro 'escritor'. Confesso que tentei. A minha voz saiu fraquinha, meio envergonhada. O sujeito não se conteve: 'Autor, carajo!'. Quase embarquei de volta na mesma hora. O tipo era simpático e tratou de mostrar conhecimento das nossas melhores obras: 'Ronaldinho Gaúcho! Kaká!'. Ufa!

(Juremir Machado da Silva para o Correio do Povo - Porto Alegre - RS)

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