Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Um filósofo francês no país das grandes contradições políticas

14/10/2007

Edgar Morin, que lança diário de viagem pela China, fala sobre o diálogo entre tradição e modernidade

(Andrei Netto - Estadão - SP)

Em 1992, a queda da União Soviética era a revolução geopolítica e econômica do momento. Na memória recente, latejavam as imagens da queda do Muro de Berlim e do massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim. Nessa época, historiadores, sociólogos e filósofos apostavam alto na derrocada do Partido Comunista chinês. Enquanto profetas observavam o país aguardando seu fracasso para auto-elogiar seu acerto, Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês, caminhava pelas ruas de Pequim, Xiang, Xangai e Cantão. Nelas, discutia com autoridades políticas os rumos do partido, ou apenas comentava os sabores das culinárias chinesas - sem preconceitos, sem aversões, sem maniqueísmos, como seria de praxe ao pensador da complexidade.

Sua aventura chinesa limitou-se a alguns poucos dias, mas abriria as portas para a tradução de sua obra, hoje acessível a um bilhão de chineses, e para outras viagens que se sucederiam. O objetivo da turnê, um convite do governo comunista, era divulgar ao mundo o processo de abertura econômica do país. Impressionado com as contradições do que via, Morin eternizou a visita em um relato inédito que vem a público no Brasil nesta semana, quando será lançado Diário da China (Sulina, R$ 26). Breve, despretensiosa e às vezes banal, a obra é crítica e repleta de questões sobre a China de então, hoje passado, e seu futuro - um tempo que chamamos de presente. No texto a seguir, Morin aceita a proposta do Estado: uma entrevista exclusiva na qual o gênio da complexidade, autor da série O Método, é estimulado a desvendar a nova potência mundial, comparando sua visão do dragão fechado e desconhecido dos anos 90 com o gigante emergente de nossos dias.

A complexidade de Morin e a China têm em comum traços políticos e filosóficos. Na juventude, Morin não escondia sua influência marxista - embora nunca maoísta -, expressa em seu alinhamento inicial à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, por ele abandonada quando da busca pelo relativismo. Ainda hoje, Morin ressalta a correspondência de sua vasta obra com a filosofia de Tao. A idéia da unidade, de complementaridade do Yin e do Yang, as relações e combinações, o pensamento que não se enclausura, tudo faz sentido para ambos. Em O Método, a referência vem em sua introdução geral: Morin cita o 'espírito do vale', uma metáfora do taoísmo que se refere ao lugar para onde correm todas as águas. 'Talvez minha familiaridade com o taoísmo tenha um significado também para eles', imagina. Talvez tenha. Por isso sua visão da China faz diferença.

A seguir, a síntese da longa entrevista concedida por Morin na semana passada, em seu escritório, em Paris.

O senhor tem uma visão privilegiada da China, por tê-la conhecido em 1992, quando do início da abertura econômica, mas ainda sob o signo da repressão política. Que país o senhor conheceu?

Conheci diversas chinas. Estive em Pequim, Xiang, a antiga capital, Xangai e Cantão. A China que conheci em Pequim foi a da capital política e também a da capital imperial, da Cidade Proibida e tudo mais. Nela tive contatos políticos, com autoridades do Partido Comunista. A seguir, conheci Xiang, que foi realmente uma descoberta. A cidade foi capital de um império que, no fundo, era extremamente aberto. Há um afresco sobre a visita de embaixadores da Pérsia, de Bizâncio e de um terceiro Estado, talvez da Mongólia. Há reencontros culturais, obras de arte magníficas, natureza exuberante. Foi um mergulho na antiga história da China. Ao lado de Xiang, havia Cantão e Xangai, que são as pontas da modernidade do país. Era lá que se construíam os arranha-céus, as grandes avenidas. Deng Chiao Ping construiu na mesma região uma cidade completamente nova, entre Cantão e Hong Kong. As chinas futurista e tradicional são arrebatadoras. Xangai conservou as marcas do Ocidente, inclusive com bairros ingleses e franceses.

Que tipo de contato o senhor mantinha com as autoridades políticas?

Quando visitava as cidades, sempre com um responsável local, como um prefeito, eu dizia: 'É preciso conservar esses bairros tradicionais'. Eles respondiam: 'Não, é preciso apagar isso e construir algo moderno'. Nós, na França, por exemplo, demolimos muitos bairros no passado. Hoje, preservamos, protegemos, impedimos sua destruição. Mas eles argumentavam: 'É importante para a circulação de automóveis'. Havia na China uma vontade irrefreável do Partido de modernizar, independentemente da qualidade da vida e da preservação histórica. Foi uma experiência rica por ter revelado as multiplicidades da China.

E no contato com a população, o que se percebia?

Na estação de trens de Cantão, tomei contato com centenas de pessoas dormindo no chão, oriundas do campo, e que ainda não tinham um pouso seguro na cidade. Vi um momento de plena transformação da China. Claro que havia coisas charmosas. Passei em frente a uma escola e fiquei impressionado com a beleza das crianças chinesas, que cantavam em corais belíssimos, emocionantes. Em outra visita, pude presenciar a liberalização cultural, evidenciada pela tradução de muitos livros, pelo uso da Internet pelos jovens chineses. Pude comprovar a curiosidade e também a inteligência que talvez tenha origem nas fusões do taoísmo e do marxismo.

O senhor via, ou vê, risco de retorno às raízes do maoísmo?

Não há riscos de retorno da ditadura a esse ponto. A China viveu um caminho sem volta, que deixou para trás as ilusões coletivas. Houve experiências econômicas e morais desastrosas entre a Revolução Cultural e o que chamamos hoje de Big Bang chinês. São lembranças duras demais para os chineses. Se eles desejarem lembrar de Mao como um fundador, isso será possível. Mas o conteúdo maoísta não existe mais. É o meu sentimento.

Fazia sentido falar em socialismo na China pós-abertura econômica?

Socialismo? O que quer dizer essa palavra? Mesmo na época de Mao Tsé Tung, usaríamos a palavra 'socialismo' para determinar uma forma de anticapitalismo. A China nunca foi uma sociedade igualitária. Hoje não existe nem mais anticapitalismo onde se diz que existe o socialismo. O que existe são palavras. Socialismo, a palavra, ainda resta. Mas a verdadeira realidade é o cultivo de um hipernacionalismo.O poder perdeu todo o caráter marxista e socialista. O que resta é um nacionalismo exacerbado que não é um caráter nem do mundo intelectual, nem do mundo popular chinês. Eles estimulam esse nacionalismo em nome da coesão do país. É por isso que têm necessidade de recorrer a atos graves, de promover massacres no Tibet e fazê-los submergir diante do poder chinês.

Logo, há um partido único, o Comunista, que gerencia uma potência capitalista. Essa configuração não é, por si só, um foco de contradição explosiva?

O maior paradoxo é que a ditadura do partido e o capitalismo sem fim fazem com que a China seja um país escravagista. Não é a toa que todos os investimentos migram para lá. O paradoxo da China é a emergência de uma classe média e a disseminação de bolsões de miséria. Seguem as pequenas zonas de prosperidade, ilhadas em meio às favelas. É incrível que um partido que se diz comunista alimente o que há de pior no capitalismo. Até quando isso vai persistir? Já há fissuras.

Fissuras internas ou externas?

Ambas. Se os produtos têxteis chineses são muito baratos, por exemplo, os demais países podem impor barreiras comerciais. Há um princípio de regulação se erguendo em relação à China. Mas a verdadeira regulação só poderá vir de dentro para fora, com a liberdade de associação sindical, com o multipartidarismo. O Estado atual é uma aliança bizarra, com fontes de conflitos e dificuldades imensas. Quando olhamos o passado, lembramos que a China é a mais antiga civilização humana, com seus 100 mil anos. Mas, se houve constância, houve também rupturas formidáveis, muitas marcadas por invasões de mongóis, de manchúrios. Na China, o caminho sempre foi se repartir em fragmentos e, a seguir, se reconstituir. Não tenho o dom da profecia e não sei o que pode acontecer. Mas convém estarmos atentos e vigilantes.

Em seu diário, o senhor cogita o risco de implosão política da China e sugere a idéia de uma federação, os Estados Unidos da China. O senhor ainda crê na intensidade dessa tensão interna?

Não creio, nem excluo. Há diferenças imensas entre as províncias interiores, onde estão os segmentos mais pobres da população chinesa, e as províncias exteriores, no litoral, que enriquecem enormemente. Daí a tentação da fragmentação. Observe a Itália: em Milão, região rica do norte, há uma inclinação real a rachar o país, porque o norte conquista a riqueza, e não o sul, que empobrece. Essas tensões existem na China. Não sei o que pode acontecer, mas vejo claros problemas de sabedoria, de conhecimento na classe política. Um caminho pode ser a nova geração de políticos, mas não os conheço e não posso avaliá-los.

A China vive um processo de modernização, ou seja, de ingresso no que se convencionou chamar no Ocidente de 'mundo moderno'. Mas a modernidade vive sua crise. Como esse paradoxo pode evoluir?

Estamos, nós ocidentais, na modernidade, mas começamos a ver seus inconvenientes. Eles, não. Os chineses estão na sua marcha ascendente. Eles imaginam que pode ser interessante construir grandes torres, que tornam todos anônimos, e destruir antigas casas. O culto do moderno, que existiu no Ocidente e que acabou na Europa há 20 ou 30 anos, segue na China. O país caminha para a modernidade a passos largos, em especial no plano econômico. O que não foi percebido ainda é que países que já passaram por esse ciclo poderiam servir como exemplo dos erros da modernidade. Os chineses poderiam descobrir no Ocidente o ponto em que seria conveniente parar.

De que forma a China vem tirando proveito da aldeia global?

Eles vêm em um processo acelerado, mantido em um ritmo comparável ao da Alemanha no final do século 19, quando se deu a primeira globalização. A China não percebe, por sua aceleração, o risco de uma crise. Porém, eles começam a viver inconvenientes, como a poluição gerada pelo tráfego de automóveis nos grandes centros urbanos ou a gerada pelas centrais térmicas de queima de carvão para produção de energia. Talvez os chineses comecem a tomar consciência, mas tudo virá progressivamente, como também virá a consciência de outros efeitos colaterais da modernização.

O que a revolução deixou de positivo na China?

O que há de muito bom no marxismo, o pensamento universalista, laico, humanista, se somou ao pensamento confucionista e taoísta e gerou um nível cultural excelente na população. O taoísmo também estimula a inteligência complexa, que procura as associações, e não as dissociações, as compartimentações que fazemos no Ocidente. Creio na engenhosidade dos chineses. A despeito da brutal ditadura do partido - estive em 1992 na Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial), em que todo o horror aconteceu em 1989 -, das perseguições aos intelectuais, percebo que há uma reserva de pensamento complexo para o futuro, longe das simplificações dicotômicas dos mundos cristão e islâmico. É incrível imaginar que a China, apesar de todos os seus problemas políticos, escapa desse maniqueísmo.

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