Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

A pulseira de jade

01/11/2007

O capitalismo chegou definitivamente à China. Do seu jeito. E do jeito dos chineses. Dá para entender? Tento explicar. Recebi este e-mail de minha ex-aluna Diana (pseudônimo adotado para evitar que destroçássemos os nomes chineses com nossas pronúncias bárbaras): 'Caro professor, estou muito triste hoje porque a minha bolsa foi furtada no ônibus, e o meu diploma de mestre e outros documentos estavam na bolsa. Hoje de manhã, estava pensando em levar o diploma para a minha universidade para fazer os registros. Mas tenho sorte má nestes dias: ontem caí e quebrei a minha pulseira de jade, e hoje a bolsa foi roubada, perdi o documento...'. Fiquei encantado com a simplicidade e a complexidade dessa mensagem, um misto de passado e presente. Ela me chegou quando eu estava terminando de ler 'Diário da China' (Sulina, 2007, tradução de Edgar de Assis Carvalho), livro de Edgar Morin recém-publicado no Brasil.
Tenho lido muito sobre a China, especialmente relatos de jornalistas que lá atuaram como correspondentes de veículos de seus países. Nenhum conseguiu a profundidade de Morin neste pequeno livro resultante de uma viagem a Pequim, Xangai e Cantão em 1992. Apesar dos 15 anos passados, a análise continua válida. Passa a ser bibliografia obrigatória para quem for à China a partir de agora. 'Eu não conhecia a China, mas o que aprendi sobre a cultura chinesa tradicional me indicava que havia algum parentesco entre o Tao e o pensamento complexo', diz Morin. Como quase todo mundo, Edgar Morin foi à China sem um conhecimento sólido da realidade do país mais populoso do mundo. Voltou de lá transformado. O primeiro dos nossos preconceitos que desaba na China é o de que todos os rostos dos chineses são iguais. A diversidade impõe-se na hora.
Qual a relação entre o livro de Morin, a mensagem de Diana, a sua bolsa roubada e a pulseira de jade quebrada? Racionalmente eu não sei. Mas a minha intuição me fez perceber um vínculo sutil ou, paradoxalmente, brutal entre os termos dessa cadeia. Telefonei para Morin, contei-lhe a história e perguntei o que ele achava. A pulseira de jade quebrada foi o que mais o impressionou. A hipótese mais óbvia faz pensar que a quebra da pulseira de jade provocou a má sorte e, por conseqüência, o roubo da bolsa com o diploma dentro. Seria uma vingança da cultura oriental contra a cultural ocidental? Qual o significado da pulseira de jade na milenar cultura chinesa? Uma leitura cultural simples identifica o cruzamento entre a racionalidade moderna e a irracionalidade tradicional (má sorte). Será isso que conta de fato nessa mínima fábula chinesa inventada com base em fragmentos de uma carta eletrônica?
Atentar somente para a questão da violência ordinária seria uma leitura redutora. A pulseira de jade introduz o imaginário nessa narrativa. Mas qual o imaginário? O dos chineses ou o nosso sobre os chineses? O que nos faz pensar que antes não havia roubo de bolsas em ônibus chineses? Que 'antes' é esse? O que nos faz imaginar que o lamento de Diana vai além da tristeza pela perda de um belo adorno? 'Se a China tiver a capacidade de se transformar numa potência econômica muito grande, isso se fará em detrimento de antigos equilíbrios rurais, dos novos pobres e novos infelizes', escreve Morin. Para dar o grande salto para frente, terá a China de quebrar a sua pulseira de jade?


(Juremir Machado da Silva para o Correio do Povo - Porto Alegre - RS)

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