Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Plágios públicos e privados

20/01/2008

Copiar é uma forma de arte, de política e de cultura. Só não copia quem não lê. O plágio é um direito universal. Não haveria civilização sem plágio. Desde tempos imemoriais, o plágio é praticado com êxito. Shakespeare era um grande plagiário. Escrevia as suas histórias a partir de histórias já contadas por outros. Tomava, porém, o cuidado de transformá-las em obras-primas. Nem todos são tão elegantes assim. A Globo plagiou para pior, num programa especial, o livro e a vida do taxista gaúcho Mauro Castro, blogueiro, cronista e autor de 'Taxitramas'. Não pagou a corrida. Plagiou também, como me advertiu uma leitora, o filme 'Uma Linda Mulher', com a personagem Bebel da novela 'Paraíso Tropical'. Só quem é fraco paga royalties por plágio.
Na França, o presidente Nicolas Sarkozy plagiou o sociólogo Edgar Morin e prometeu investir numa 'política de civilização'. A idéia é excelente. Só que já tinha dono. Henri Guaino, o escriba particular de Sarkozy, foi quem saqueou abertamente a obra de Morin. As políticas de civilização do intelectual e do político, no entanto, têm uma ligeira diferença: Morin, ao criar o termo, pensava em moralidade, solidariedade e senso de identidade. Coisas anacrônicas. O moderno Sarkozy tem defendido a idéia de que fundamental é trabalhar mais para ganhar mais. Uau! O plágio de Sarkozy revela o imaginário francês que ainda se dá o trabalho de roubar um intelectual. Se fosse no Brasil, o pragmático e popular Lulla teria copiado o filósofo Zeca Pagodinho e cantarolado: 'Deixa a vida me levar, oh, vida leva eu...'.
Os jornais parisienses não têm poupado Sarko: ele nos prometeu a lua e até agora só vimos foi a sua lua-de-mel com Carla Bruni, satirizou um deles. O maior plágio do presidente francês ainda está por vir. Ele pretende copiar o nosso trepidante e comunicativo Luiz Inácio. Será uma honra. O problema é que, no assunto a ser copiado, Luiz Inácio se insere numa longa cadeia de plágios. Que fazer? Não há como exigir originalidade de plagiários. Sarkozy pretende seguir o exemplo brasileiro, imposto democraticamente por nosso líder máximo (estou plagiando Elio Gaspari com esse tipo de expressão) e financiar uma televisão, no melhor estilo da BBC, para que haja mais liberdade de informação e pluralidade de pontos de vista. A idéia é aumentar um imposto sobre a publicidade nas televisões privadas, na telefonia móvel e nos provedores de Internet de forma a garantir o sustento da TV França. Brasil e França se plagiam no desejo de aumentar impostos. Em geral, alcançam os seus objetivos.
O problema é que a França já tem televisões públicas de grande porte. Sarkozy não está contente com o modelo, que, segundo ele, se mercantilizou. A proposta é que essas TVs públicas não possam mais veicular publicidade. Essa parte do bolo publicitário iria para os canais privados, o maior deles de propriedade de um grande amigo do presidente, que não veria inconveniente em pagar um pouquinho mais para abocanhar esse delicioso naco de investimentos. A França plagia o Brasil em toma-lá-dá-cá. Quem sabe um dia os franceses não plagiarão o Rio Grande do Sul e criarão novas Oscips com o objetivo de obter publicidade privada para as televisões públicas? O plágio não tem ideologia. Une direita e esquerda. Viva as PPPs: os Plágios Públicos e Privados.

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