Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Às margens do rio, eu me sentei, mas não chorei

21/02/2008

Estávamos fazendo um passeio de bicicleta por vários povoados de Alagoas quando o celular de Cláudia tocou. Era meu amigo Luis Gomes, editor da Sulina, recém-chegado de um mês na França, com duas notícias de morte: de 'seu' Vitor Hugo, pai do nosso inesquecível amigo Ricardo Carle, e do escritor francês Alain Robbe-Grillet. Desci da bicicleta, contemplei o cenário e sentei-me à beira de um rio, num vilarejo chamado Lajes. Uma senhora muita velha, fumando uma bagana de cigarro, vinha do rio com dois baldes de água. Apenas uma rua separava a aldeia do leito do rio, onde crianças e adolescentes banhavam-se e mulheres lavavam roupas. Na calçada, homens jogavam dominó. Eu só podia me sentir estrangeiro nesse Brasil do Nordeste, ao mesmo tempo, primitivo, lindo, sonolento, esquecido, estranho e deliciosamente pitoresco.
Eu me sentei à margem do rio, mas, contrariando o título do livro célebre de Paulo Coelho, não chorei. 'Seu' Vitor Hugo viveu para a família, estava muito doente e certamente já merecia o seu descanso. Alain Robbe-Grillet, o papa do novo romance, que, em nome do Festival do Gramado, eu convidei para vir ao Rio Grande do Sul, em 1995, havia sofrido uma grave operação de coração. Mesmo assim, havia aceitado um novo convite meu, em nome de Fernando Schuler e da Braskem, para ser palestrante no ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento 2008. Ele era membro da Academia Francesa, embora tenha se recusado a tomar posse para não ter de pegar o mico de vestir o fardão. Dele, eu traduzi para o Brasil o radical 'Os Últimos Dias de Corinto' (Sulina).
Ele gostava de me lisonjear chamando-me de seu último discípulo. Em Gramado, onde ele, sua mulher e eu passamos uma semana de muito churrasco e diversão, ela me contou uma das tantas 'bizarrices' da sua vida com Robbe-Grillet. Num dos aniversários dele, ela o presenteou com uma jovem e linda prostituta de luxo para uma noite sem limites. Ao longo da sua vida de escritor e de cineasta, Alain Robbe-Grillet criou um escândalo atrás do outro. O último, sob a forma de ficção literária, 'Um Romance Sentimental', saiu em 2007 e eu terminei de ler aqui em Alagoas. Nada mais nada menos do que a história de um homem imobilizado – Robbe-Grillet na mesa de cirurgia? – descrevendo a sua libido. Em resumo, uma história sadomasoquista imediatamente acusada de elogio à pedofilia.
Alain Robbe-Grillet, evidentemente, não era pedófilo nem sadomasoquista, mas sabia como poucos desvendar as mais sóbrias fantasias dos homens. Poucos escritores jovens, desses que tentam imitar Charles Bukowsky – sem conseguir sequer beber tanto quanto o velho safado – produzirão algum dia um texto tão radical e violento quanto o do último livro do octogenário Robbe-Grillet. Se a televisão brasileira não fosse o lodo medíocre que é, colocaria em horário nobre 'O Ano Passado em Marienbad'. Às margens do rio nordestino, eu não chorei por saber que 'seu' Vitor e Alain Robbe-Grillet haviam cumprido as suas missões nesta margem da vida. Voltamos para a pousada a tempo de conhecer Teresa Collor, a mulher cujo marido ajudou a derrubar um presidente, que, por acaso, era seu irmão. A tecnologia nos alcança em qualquer lugar, mesmo onde as águas do rio parecem contestar certa sabedoria grega e se repetem maravilhosamente diferentes como um livro de Alain Robbe-Grillet. Corinto passou a fronteira.

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