Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Numa ilha deserta

06/03/2008

Sábado passado fomos ver o show do Milton Nascimento e do Jobim Quarteto, que inclui o neto e o filho de Tom Jobim. A maioria do público passava facilmente dos 45 anos. Deixo vocês tirarem conclusões sobre esse dado de estatística aproximada. Não me proponho a emitir hipóteses sobre isso. Arrepiado com a performance do Milton, fiquei pensando naquela idéia absurda que volta e meia reaparece ou nos é proposta por um jornalista original: se eu tivesse de ir para uma ilha deserta, o que levaria? Em primeiríssimo lugar, a Cláudia. Sem ela eu me recusaria a ser náufrago e ponto final. Por extravagância tipicamente masculina, poderia pensar em levar também a Ana Paula Arósio. Mas aí a Cláudia não deixaria ninguém ir. Eu levaria também a voz do Milton Nascimento. Continua sendo a mais bela voz masculina de um cantor brasileiro em atividade. Algo espetacular. Quando ele cantou 'Faca Amolada' eu compreendi por que muitos insistem em acreditar que Deus é brasileiro.
Viagens para uma ilha deserta são complicadas no que se refere à organização do evento, pois obrigam a um processo de seleção impiedoso quanto ao que se levaria para esse isolamento incontornável e até o fim da vida. Se eu pudesse partir com muita coisa, iria com uma biblioteca inteira, filmes e muita música. Caso me forçassem a indicar títulos, como sempre fazem aqueles que tentam nos mandar para uma ilha perdida, eu tentaria negociar. Quantos títulos e autores? Vocês sabem que esse tipo de carrasco não dá mole. A resposta mais generosa seria três, um escritor clássico, um moderno, já falecido, e um atual. Não temos tempo para discutir como esses critérios foram estabelecidos. É sabido que uma maneira de demonstrar insatisfação simulando uma fachada racional, possivelmente racional mesmo e justa, consiste em perguntar: 'Como foram fixados os critérios?'.
Sem margem para discutir os critérios, eu não hesitaria: 'As Flores do Mal', de Charles Baudelaire, o meu volume verde das 'Obras Completas' de Jorge Luis Borges e 'Partículas Elementares', de Michel Houellebecq. Imagino que essa lista provoque calafrios em nossos nacionalistas. Que posso fazer? Em literatura e vinhos, os argentinos e os franceses nos dão de relho. Felizmente temos a música e o futebol para dar o troco. Quanto à música, eu tentaria viajar com o melhor da MPB nas vozes do Milton de Nascimento e da Gal Costa. Ainda não ouvi quem tenha feito melhor depois deles. E, ao contrário do que alguns possam imaginar, conheço as novidades. Milton cantando 'Poema Sujo', de Ferreira Gullar, faria de qualquer ilha deserta, quente e inóspita, um paraíso.
Agora, vamos imaginar o pior, visto que, em se tratando de ilhas desertas, o pior é sempre possível, embora sempre permita alguma alternativa cultural: se eu tivesse de ir com só um livro e um CD, quais seriam? O meu volume verde das 'Obras Completas' de Borges e um CD com sonatas de Beethoven. Vou chegar ao extremo, pois é isso que se espera de um morador de uma ilha perdida, se eu tivesse de escolher um único conto e uma única sonata, número que nem propina poderia alterar, seriam 'El Hombre de la Esquina Rosada' e a 'Patética'. Daria para suportar algumas décadas sem o menor aborrecimento ou tédio. Só me faltariam, no começo, um pay-per-view para assistir à volta do Nilmar aos gramados e, ao fim, a voz do Milton.

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