Mark Dery, o intelectual cyberpunk
23/06/2007
Os revolucionários não sabem, mas a revolução está acontecendo. Ou já aconteceu. Mark Dery, palestrante do ciclo Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul Cultural, com o apoio da Ufrgs, da PUCRS, da Uergs e da Unisinos, saberá, com certeza, dar essa notícia a quem for ouvi-lo, na próxima terça-feira, 26 de junho, falar de um tema estranho: 'A instituição do sexo está em todos os lugares'. O outro conferencista da noite é o professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Donaldo Schüler. Será certamente excitante vê-los explicitamente tratando de sexo em público. Sem brincadeira, será um confronto interessante entre o intelectual da cibercultura, um dos fundadores do movimento cyberpunk, e o pensador da modernidade, tradutor de James Joyce. Ambos vão com certeza rimar na crítica virulenta ao 'imperialismo' norte-americano, por exemplo, no Iraque.

O mundo da cibercultura tem as suas referências e mitos, que vão de William Gibson, Sherry Turkle, Howard Rheingold e Shannon McRae, passando por Pierre Lévy e Nicholas Negroponte, até Lev Manovich e Donna Haraway. No Brasil, o nome de referência é André Lemos, professor na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, do qual se pode ler 'A cibercultura', lançado pela Sulina, editora que tem, faço o comercial sem ganhar dez por cento, a melhor coleção de cibercultura do Brasil. No Rio Grande do Sul, os professores Alex Primo, da Ufrgs, e Eduardo Pellanda, da PUCRS, despontam como especialistas desse grande tema do momento. Agora, se alguém colocar o nome de Mark Dery no famoso Google, não tardará a descobrir que o seu livro 'Escape velocity. Cyberculture at the end of the century' (1996) é considerado como 'A' referência mundial em termos da cultura da Internet. Eu li a edição francesa. Só posso dizer que é desconcertante e sedutor. Inadmissível, portanto, que não esteja publicado no Brasil.

Elogios a Dery não faltam. A revista Wired, a Bíblia dos internautas fashion, considerou o livro 'Flame wars' (1994), organizado por ele, como 'obra essencial'. A Times disse que ele é uma 'das pessoas mais inteligentes' da atualidade. Adriana Amaral, professora da Universidade Tuiuti do Paraná e ciber-intelectual, garante que o homem é um gênio. Professor de jornalismo na Universidade de Nova York, crítico de mídia, escritor e articulista, Dery tem publicado os seus textos no New York Times, na Wired, na Rolling Stone e no Village Voice. Toda essa apresentação é só para impressionar os gaúchos, como quem diz que o homem é bala mesmo. Imaginem que ele já abordou temas como ciberchamanismo, cibermagia, ciber-religião e cyborgs. Vocês acham que sabem que o está acontecendo no mundo virtual porque já visitaram o Second Life, então vou desapontá-los: há um outro mundo, desconhecido e assustador, em algum lugar aquém e além da tela do computador. Esse mundo assombroso e inusitado é descrito detalhadamente por Dery. Não é por acaso que um dos seus livros, de 1999, intitula-se 'The pyrotechnic insanitarium: american culture on the brink' (O anti-sanatório pirotécnico: a cultura norte-americana à beira do abismo).

Volta e meia, ele se mete numa polêmica. Foi o caso quando ousou discutir a idéia de que somos todos ciborgs. Não sabiam? Pois há quem sustente que estamos no pós-orgânico, no pós-humano, e que já somos todos cyborgs. Ou seja, nosso corpo é cada vez mais uma máquina artificial e, se nada sair errado, vamos nos livrar dele transferindo nossos cérebros para computadores, o que, enfim, nos garantirá a imortalidade. Em 1991, Donna Haraway publicou o seu 'manifesto cyborg', segundo o qual a cibercultura mandou para a linha de fundo as oposições clássicas da cultura ocidental como entre espírito e matéria, natural e artificial e masculino e feminino. O pessoal lá de Palomas acharia uma frescura danada tudo isso, principalmente a idéia da superação das diferenças sexuais. Haraway chegou a falar de uma era 'pós-sexuada'. Já imaginaram o tédio? Marc Dery, claro, meteu o maior pau nessa baboseira toda.

Para ele, apesar do seu inegável fascínio pelo imaginário tecnológico, a cibercultura fabricou uma nova oposição, um dualismo entre a velha carne perecível e o novo corpo constituído somente de informação. Num arroubo crítico, Dery garante que essa utopia do corpo desencarnado é apenas uma nova faceta da tradicional rejeição moralista do Ocidente cristão ao sexo. Como bem mostrou, porém, Michel Foucault, o sexo persevera e passa por cima de tudo: 'Tudo é sexo, dizia Kate em 'The plumed serpent', tudo é sexo. Como o sexo pode ser belo quando o homem o mantém poderoso e sagrado e quando ele preenche o mundo. Ele é como o sol que vos inunda, que vos penetra com sua luz'.
(Juremir Machado da Silva)
Link: www.correiodopovo.com.br

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